A Estrada

Tem uns dias. Uns dias em que eu não queria nada disso. Não queria acordar de manhã feito um zumbi, praticar laboriosamente os gestos universais (salve, Drummond), sair de casa, entrar no metrô lotado, passar o crachá pontualmente na catraca e ficar aqui entorpecendo o cérebro com incríveis operações financeiras. Tem uns dias em que eu não queria essa baia, essa luz artificial, esse monitor de computador na minha frente, o telefone tocando, as conversas de banalidades unânimes. Não queria o café ralo, não queria o chefe chato. Não queria, não quero.

Nesses dias, quando tudo está mais difícil, só o que eu queria era a amplidão do deserto. O vento louco que atira pedras. Queria de volta a sensação de estar viva, indecentemente viva, umas partes de mim meio entorpecidas ainda doendo do súbito despertar. Queria o sol alucinado, os guanacos correndo. Lagos de água indescritivelmente azul. Queria sair de manhã sem saber o que vou ver até o fim do dia. Sem saber o que vou comer. Sem saber onde vou dormir. Queria de repente, numa esquina, uma casa de chá galesa. Um restaurante onírico com uma mesa impossivelmente repleta de delícias. Uma cabaña com vista pras montanhas nevadas. Uns pinguins atravessando na minha frente, uns golfinhos nadando do meu lado, um condor voando acima da minha cabeça. E a estrada. A estrada se estendendo, longa, infinita, cantando a impossível canção de sereia, chamando pra mais um pouco, mais longe, mais livre, mais além.

Sei que alguns sabem o que é isso. Sei que tem dias em que a estrada chama vocês, também. E tem dias em que dá vontade de chutar tudo e ir, só ir, até chegar. Porque esse torpor do trabalho e da rotina alienante leva pro desespero, e a estrada, não. A estrada é a esperança. Eu sei.
Anúncios