Livre associação

Estruturar uma narrativa coerente. Encontrar o conflito, não fugir dele. Administrar desejos paradoxais. Aceitar que o desejo e sua negação convivem todo o tempo. Transgredir e desejar a punição. Sentir culpa. Sentir medo. Sentir solidão. Querer mudar e ter medo da mudança. Querer fazer, e procrastinar. A pitada insidiosa de caos no cotidiano. Ter saudade e ter preguiça. Amar e nem saber por onde começar a dizer. Dizer. Falar. Admitir que a fala é a falta. Faltar. Entender que a falta é o que move. Querer preencher o vazio, e querer o vazio. Saltar no vazio. Ter medo de cair. Querer o mar e o porto. Procurar uma música que descreva a angústia, um poema que descreva o amor, um livro que elabore. Não encontrar. Encontrar. Achar que encontrou.Querer viajar, ter medo de avião. Vontade de ter filhos. Medo de não conseguir. Amar profundamente. Ter medo de perder. Sonhar que perde. Sonhar e não entender.

Ser uma criatura do desejo e da morte.

Manifesto obsessivo

Não é bonito ser uma pessoa pesada (e não, isso não tem qualquer relação com massa corporal, e há por aí muita gente corpulenta que é leve, leve). Não é poético, não é atraente, não é romântico. Não está nas fantasias de ninguém. Não há pesados protagonizando filmes de Hollywood, a não ser em papéis cômicos. Woody Allen é um pesado. Jack Nicholson também.

Nós, os pesados, somos sempre alvo de chacota. Riem da preocupação excessiva, da possessividade, da ansiedade, do medo. Riem porque não sabemos viver a vida, não conseguimos relaxar. Na língua inglesa, somos apelidados de “anal retentive”, e dizem que é pela teoria freudiana das fases do desenvolvimento, mas na verdade é para fazer troça. Gente pesada sofre bullying pesadíssimo.

Sou dessas que chego num restaurante e me preocupo que haja cadeiras para todo o grupo. Dou uma festa, e espero que ninguém sobre sozinho no canto, sem companhia. Tenho horários e cumpro. Tenho obrigações e me desespero. Erro um caminho e entro em pânico. Fico irritada se as pessoas são grossas comigo, e me preocupo ao extremo em ser gentil. Sou uma pessoa chata, ligeiramente burocrática, um bocado cansativa. Não é simples conviver comigo e com a minha constante vigilância a todas as pequenas coisas.

Queria ser sílfide na vida. Solta, leve, flutuante. Queria ser assim, desprendida, dessas que pousam de leve e não pesam sobre as costas de ninguém. Queria ter riso frouxo, abraços enormes, e um jeito sincero de dizer “passa lá em casa” sabendo que ninguém vai passar em lugar nenhum. Queria saber me perder confiando que me achar é só uma questão de tempo – e que esse tempo não vai me fazer nenhuma grande falta na vida. Queria saber perder tempo, aliás. Jogar fora, e não lastimar. Queria saber jogar fora tudo. Todo o entulho.

Meu drama é que sou âncora, mas queria ser mar.