Quase 30

Quase 30 anos, e sentindo essa dor meio adolescente. Como se ainda a transição não tivesse acabado. E assumir o peso de ser quem escolhe fosse parte do futuro distante.

Quase 30, e há dias em que eu só queria entregar para alguém a carteirinha de gente grande. Deixar que escolham por mim, que me digam o que fazer, que assumam os riscos e as consequências. Dias em que não queria ter que lidar com dinheiro, com doença, com casamento, com cachorro, com perdas. Nada. Queria de volta as minhas férias escolares.

Existe um termo em inglês, “growing pains“, que se refere à dor física do corpo crescendo, quando vem a puberdade. Se eu tivesse ainda ossos por crescer, talvez isso explicasse. Mas as minhas dores são as bobagens de quem tem quase 30 anos e ainda não se acostumou.

De novo, o que eu precisava era de um pouco mais de leveza. E de novo, o que tenho são os ombros meio curvos de quem não recebeu asas ao nascer, só as pernas grossas e os passos pesados que fazem barulho no chão.

Às vezes me parece um desperdício ter oportunidade de viver assim, cheia de experiências e sortes, e seguir tropeçando e pisoteando. Mato minhas plantas. Sufoco. Ponho água demais. Não consigo que floresçam, não dou espaço, não deixo que o imponderável cumpra sua parte.

Quase 30 anos, e tanto medo de tanta coisa. Eu não era assim, fóbica. Agora tenho medo de avião, suo frio com a turbulência. Passo mal em barcos quando o mar está revolto. Fico nervosa quando o carro faz uma curva mais fechada. E morro, morro de medo do meu próprio desejo, e das peças que ele me prega quando resolve se libertar.

 

Buracos

As unhas por fazer, um ar de descuido. Devia ter passado perfume, mas esqueci. Queria ter colocado um brinco bonito, mas a orelha está inflamada. Não passei o produto no cabelo e ele vai secar todo estranho. Tentei acostumar a passar batom, desisti: com a boca pintada, pareço uma criança. Lápis de olho me faz lacrimejar. Pelo menos estou de vestido, usando um colar que combina. Adoro colares, dizem que taurinas são assim, puro pescoço.

A casa está meio bagunçada, pêlos de cachorro por todos os lados. Tiro os sapatos e fico com preguiça de guardar. Tem louça suja na pia, detesto lavar panelas, tenho nojo de bucha suja de gordura. Os livros se empilham, não há prateleiras que cheguem. Livros começados e parados, livros nunca abertos, livros lidos e relidos, livros que sei lá por que é que continuam na estante. Roupas semi-usadas se penduram nos ganchos para novos usos que virão, um dia.

Fotos de viagem nunca organizadas, nunca tratadas, mostradas para poucos. As viagens que se acumulam na lembrança. Sempre penso em fazer diários de viagem, sempre desisto lá pela metade, quando o cansaço e a excitação superam a vontade de lembrar. Nomes, esquinas, estabelecimentos, pessoas, monumentos, artistas, estilos, épocas, tudo se mistura numa memória que é mais impressão do que detalhe.

A planilha de gastos. O cardápio da semana. O programa de exercícios. A organização das músicas nos ipods. A decoração da sala. O livro de receitas. Começados e esperando conclusão. Procrastinados sem dó.

Tudo incompleto, imperfeito. Irremediavelmente. Sou.

Sunday Blues

Sunday blues” é um nome bonito para um negócio feio: a combinação de preguiça e melancolia que atinge os proletários do mundo quando vai começando a musiquinha do Fantástico (ou do programa dominical noturno da Polônia ou do Zimbábue), porque pensamos que a segunda-feira é algo fundamentalmente diferente do fim de semana.

O fim de semana dá a impressão de que estamos saindo por alguns instantes do moedor de carne. No fim de semana, quase chegamos a acreditar que estamos livres, que somos donos do nosso tempo. Mas é uma mentira óbvia: o fim de semana existe apenas para que a nossa durabilidade como trabalhadores seja maior. Os fins de semana são o nosso óleo lubrificante. E entendam aí lubrificante como queiram.

Raul já sabia disso. E achava um saco o domingo no zoológico dando pipoca aos macacos. Mas nós alimentamos a ilusão de que algo nos diferencia fundamentalmente daqueles macacos. E que existem grades que nos separam de tudo o que não nos pertence, e nos delimitam: nós não somos aquilo que as grades contêm.

Sunday blues é o nome bonito para um sentimento angustiante: o intervalo entre o cair do pano e o acender das luzes, quando a ficção e a realidade por um instante se borram, e temos a esperança de que talvez não sejam atores, talvez a história de fato tenha acontecido, e a nossa existência precária se justifique, talvez haja um de verdade nisso tudo.

Mas as luzes se acendem na segunda-feira, e lembramos – como é que havíamos esquecido? – que as chaves enferrujadas da jaula estão em algum lugar por aí, e perdemos mais um domingo sem procurar.