Todo o sentimento

Não é nada original, mas eu queria entender por que é que as coisas acontecem quando e como acontecem. Por que é que a vida dá umas guinadas inesperadas, por que é que algumas pessoas entram ou saem, como é que isso tudo se conecta. Talvez fosse um pouco menos angustiante ter a certeza de que tudo tem um sentido. Nessas horas entendo de verdade quem se segura na fé.

Mas eu não sei nada disso. Eu não sei por que é que a vida aproxima pra logo depois separar. O que sei é que estou aqui, mas sem lugar, com um afeto que me fortalece e me desnuda. E que me fez crescer, porque é coisa de gente grande, de quem está disposto a viver o que se apresenta, e a se libertar, mesmo que por pouco tempo, do que às vezes parece tão talhado na pedra.

Quis muito viver o que vivo hoje. Cada dia, cada pedaço, cada sentimento. Permiti que isso mudasse a forma como ajo, como vejo o mundo, e me fez tão bem. Primeiro era algo que eu queria sair espalhando, depois espalhei o suficiente, e vi que não tinha saída, que o que estava vivendo era meu. A minha estrada, o brilho nos olhos que as pessoas percebem, mas não sabem explicar.

E agora está aí: a perda. Que eu já vinha entendendo que seria inevitável. O mundo estava chamando. O mundo não lida bem com situações que escapam definição, com afetos que não cabem nas caixinhas de sempre, com estradas ensolaradas pra lugar nenhum.

E é tudo tão delicado. Assim, como um filhote de passarinho. Como um filete de água do glaciar. Como a neve caindo nas montanhas em pleno verão. É delicado como são delicadas as coisas mais lindas, aquelas que nos marcam para a vida, aquelas que a gente guarda lá no fundo, pra lembrar com alegria quando a vida for tomada pelo desamparo, e que nem adianta tentar mostrar pra ninguém. Talvez um dia, talvez num tempo da delicadeza.

Anúncios