Sobre violabrandstatter

Um personagem de mim mesma. Witty & Wild.

Café

Hoje de manhã coloquei café na minha xícara, e esqueci de beber. Era um café bom, especial, comprado como mimo, já que gostamos de café mas estamos sempre comprando as mesmas marcas mais ou menos. Ficou na xícara, esfriando para ser jogado fora, porque eu estava com tanto sono, e tão distraída, que saí de casa sem me dar conta de que não tinha tomado café.

Talvez tenha sido o dia que não deveria começar. O café era só o símbolo. Minha pequena dose de revolta. Tomar café de manhã é confessar que ainda tenho sono, muito sono, mas preciso despertar. Preciso estar pronta para as minutas, as reuniões, as contas a pagar, o vestido chique na lavanderia, o cachorro no veterinário, a instalação do ar condicionado, a papelada a preencher, o planejamento da viagem.

Há que se beber café, mas o meu ficou na xícara. E eu não acordei, e o dia continuou um sonho em que a trepadeira toma conta do muro, do carro, da casa, e passamos a viver num casulo verde e fresco de onde não é mais preciso sair.

Todo o sentimento

Não é nada original, mas eu queria entender por que é que as coisas acontecem quando e como acontecem. Por que é que a vida dá umas guinadas inesperadas, por que é que algumas pessoas entram ou saem, como é que isso tudo se conecta. Talvez fosse um pouco menos angustiante ter a certeza de que tudo tem um sentido. Nessas horas entendo de verdade quem se segura na fé.

Mas eu não sei nada disso. Eu não sei por que é que a vida aproxima pra logo depois separar. O que sei é que estou aqui, mas sem lugar, com um afeto que me fortalece e me desnuda. E que me fez crescer, porque é coisa de gente grande, de quem está disposto a viver o que se apresenta, e a se libertar, mesmo que por pouco tempo, do que às vezes parece tão talhado na pedra.

Quis muito viver o que vivo hoje. Cada dia, cada pedaço, cada sentimento. Permiti que isso mudasse a forma como ajo, como vejo o mundo, e me fez tão bem. Primeiro era algo que eu queria sair espalhando, depois espalhei o suficiente, e vi que não tinha saída, que o que estava vivendo era meu. A minha estrada, o brilho nos olhos que as pessoas percebem, mas não sabem explicar.

E agora está aí: a perda. Que eu já vinha entendendo que seria inevitável. O mundo estava chamando. O mundo não lida bem com situações que escapam definição, com afetos que não cabem nas caixinhas de sempre, com estradas ensolaradas pra lugar nenhum.

E é tudo tão delicado. Assim, como um filhote de passarinho. Como um filete de água do glaciar. Como a neve caindo nas montanhas em pleno verão. É delicado como são delicadas as coisas mais lindas, aquelas que nos marcam para a vida, aquelas que a gente guarda lá no fundo, pra lembrar com alegria quando a vida for tomada pelo desamparo, e que nem adianta tentar mostrar pra ninguém. Talvez um dia, talvez num tempo da delicadeza.

Terapia Intensiva

Esses dias, tenho frequentado o CTI de um hospital em Belo Horizonte, para visitar meu avô. Com os avanços da medicina moderna e o aumento da expectativa de vida, poucos são os poupados dessa viagem a terra estrangeira, que começa logo na sala de espera.

Diferentemente dos quartos, o CTI tem horário de visita. Durante os tensos minutos que antecedem o horário marcado, familiares e amigos aguardam, com íntima ansiedade e resignação aparente, que a enfermeira responsável abra a porta e inicie o processo de admissão. Prancheta na mão, ela confirma o nome do paciente, e o nome e o grau de relacionamento dos visitantes com o visitado. De manhã e à noite, o máximo é de três visitas por paciente. À tarde, quatro. Não é permitido revezar, para evitar tumulto. Não é permitido entrar com bolsas e mochilas, que devem ser guardadas num escaninho próprio, numerado de acordo com os boxes dos pacientes.

A primeira impressão após a entrada é incômoda. Nos boxes envidraçados, pessoas em situação crítica exercem sua prerrogativa de continuar vivas, auxiliadas por todo tipo de aparelho, cercadas de tubos, monitores, balões. Em cada vitrine, uma placa de papel traz o nome, a idade e a data de internação. Quem passa no corredor vê tudo o que se passa, exceto se as cortinas estiverem fechadas.

Além disso, o CTI é barulhento. A música ambiente é um coro desconjuntado de bips intermitentes, pessoas falando (ainda que baixo), carrinhos transitando. O box do meu avô tem porta, mantida fechada porque há suspeita de infecção por H1N1 (não confirmada e pouco provável, já que ele é vacinado), e a vigilância sanitária assim exige. Não deixa de ser uma sorte. Isolados, o ambiente ao redor da cama dele se converte em espaço para um diálogo familiar.

Meu avô não está acordado. Dorme profundamente, entubado e ligado ao respirador. Não sabemos o quanto ele é capaz de ouvir do que dizemos, se é que alguma coisa. Não sabemos sequer se ele sabe que estamos lá. Mas conversamos. As máscaras que precisamos usar – de novo, ordens da vigilância sanitária – dão um aspecto onírico: sem vermos as bocas se mexendo, a conversa parece telepática. Nós o cumprimentamos quando entramos, nos despedimos quando saímos. Falamos dele quando estamos lá, e falamos de nós: nossa pequena família, as histórias, os nossos medos.

Minha avó pergunta para que tantos tubos ligados nele. Fica preocupada se ele está com frio: levou meias, e quer que coloquem um cobertor, porque ele é muito friorento. Ela é apenas um ano mais nova que ele, mas o estado de saúde dos dois é completamente diferente. Ele fuma três maços de cigarro por dia, já fez duas pontes de safena e mais angioplastias e cateterismos do que sou capaz de lembrar, teve um infarto, uma trombose arterial na perna. Ela fez uma angioplastia, anos atrás, e o médico apresenta o caso dela em congressos como exemplo do melhor resultado possível de um procedimento desses: nunca mais teve nada. Está quase surda, enxerga pouco, mas tem uma vitalidade que impressiona.

Vovó é uma pessoa pragmática. Não consegue conversar com o marido inconsciente, porque considera que ele não tem como ouvir. Reza em silêncio segurando a mão dele, e seus olhinhos atentos, atrás da máscara, percorrem nervosamente o ambiente, verificando se está tudo certo, se não há tubos fora do lugar, se vovô está quentinho, se os balões de líquido não estão vazios.

Meu tio quer entender o que está acontecendo. O que são os índices em cada monitor. Quais números são considerados bons. Por que os aparelhos apitam. Para que serve cada um dos remédios que está sendo injetado nele. Cada um dos artefatos no quarto. A cada vez que entra, verifica os números e faz algum comentário: “a oxigenação melhorou”, “estou achando a pressão meio baixa”, “a frequência cardíaca está estável”. Tenta enxergar sentido em cada pequeno sinal, quer interpretar as mudanças de posição do vovô na cama.

Minha prima, da primeira vez que foi visitar, não aguentou ficar. Disse que aquele não era o avô dela. Entrou em choque com ele sedado, entubado, privado da voz de trovão e do jeito expansivo, das piadas inconvenientes, do olhar doce. Depois, foi se acostumando. Aprendeu. Passou a querer ir vê-lo, a gostar de estar com ele em silêncio. Amando mais um pouco enquanto é tempo.

Mamãe é quem coordena a movimentação familiar. Médica, trabalhou por anos em CTI pediátrico, e dá as explicações, os nomes, os motivos de tudo. Escuta os médicos responsáveis, e traduz para nós os termos técnicos. Enxerga a situação da forma mais clara, e ajuda a manter expectativas sob controle. Não deixa que nenhum horário de visitas seja em vão: tenta ir a todos, e procura quem possa ir quando ela não pode. Conversa com vovô, conta as notícias, faz carinho. Disfarça a ansiedade.

Com 19 anos, ainda na faculdade de medicina, ela acompanhou meu avô a São Paulo, para fazer sua primeira safena na Beneficência Portuguesa. Desde então, e à medida que minha avó também foi envelhecendo e perdendo as forças, foi progressivamente assumindo o papel de levá-lo pela vida. Lá se vão 30 anos de uma abnegação dolorosa, de que ela hoje fala com mais tranquilidade, depois de muita psicanálise. Minha mãe é uma pessoa dos deveres, do fardo pesado, da responsabilidade a toda prova. Sofre em silêncio. Fala pouco da própria dor, mas seus olhos traem o cansaço e o desânimo.

E eu. Que cresci no colo do meu avô, ouvindo contar vezes sem fim as mesmas histórias dos mesmos livros, que eu exigia que fossem repetidas com as mesmas palavras. Que aprendi com ele a identificar passarinhos pelo canto, a reconhecer plantas, a colher da horta e do pomar. Que pude brincar com ele, enfiar-lhe varetas no cabelo de caracóis miudinhos, pintar suas mãos de canetinha hidrocor. Que recebi dele muito mais do que o simples afeto de um avô pela neta, que encontrei nele uma referência de amor e cuidado, um porto seguro pela vida. Que tive uma crise de choro quando entrei no box dele pela primeira vez. E que ali, segurando a mão do vovô, ouvindo aqueles bips, contemplando o corpo inerte, sinto ir embora o último laço que me prendia à infância. Cresci. Estou em alto-mar.

No CTI, estamos todos em processo. Para o meu avô, infelizmente, a melhora é incerta. Para nós, é inevitável.

Quase 30

Quase 30 anos, e sentindo essa dor meio adolescente. Como se ainda a transição não tivesse acabado. E assumir o peso de ser quem escolhe fosse parte do futuro distante.

Quase 30, e há dias em que eu só queria entregar para alguém a carteirinha de gente grande. Deixar que escolham por mim, que me digam o que fazer, que assumam os riscos e as consequências. Dias em que não queria ter que lidar com dinheiro, com doença, com casamento, com cachorro, com perdas. Nada. Queria de volta as minhas férias escolares.

Existe um termo em inglês, “growing pains“, que se refere à dor física do corpo crescendo, quando vem a puberdade. Se eu tivesse ainda ossos por crescer, talvez isso explicasse. Mas as minhas dores são as bobagens de quem tem quase 30 anos e ainda não se acostumou.

De novo, o que eu precisava era de um pouco mais de leveza. E de novo, o que tenho são os ombros meio curvos de quem não recebeu asas ao nascer, só as pernas grossas e os passos pesados que fazem barulho no chão.

Às vezes me parece um desperdício ter oportunidade de viver assim, cheia de experiências e sortes, e seguir tropeçando e pisoteando. Mato minhas plantas. Sufoco. Ponho água demais. Não consigo que floresçam, não dou espaço, não deixo que o imponderável cumpra sua parte.

Quase 30 anos, e tanto medo de tanta coisa. Eu não era assim, fóbica. Agora tenho medo de avião, suo frio com a turbulência. Passo mal em barcos quando o mar está revolto. Fico nervosa quando o carro faz uma curva mais fechada. E morro, morro de medo do meu próprio desejo, e das peças que ele me prega quando resolve se libertar.

 

Buracos

As unhas por fazer, um ar de descuido. Devia ter passado perfume, mas esqueci. Queria ter colocado um brinco bonito, mas a orelha está inflamada. Não passei o produto no cabelo e ele vai secar todo estranho. Tentei acostumar a passar batom, desisti: com a boca pintada, pareço uma criança. Lápis de olho me faz lacrimejar. Pelo menos estou de vestido, usando um colar que combina. Adoro colares, dizem que taurinas são assim, puro pescoço.

A casa está meio bagunçada, pêlos de cachorro por todos os lados. Tiro os sapatos e fico com preguiça de guardar. Tem louça suja na pia, detesto lavar panelas, tenho nojo de bucha suja de gordura. Os livros se empilham, não há prateleiras que cheguem. Livros começados e parados, livros nunca abertos, livros lidos e relidos, livros que sei lá por que é que continuam na estante. Roupas semi-usadas se penduram nos ganchos para novos usos que virão, um dia.

Fotos de viagem nunca organizadas, nunca tratadas, mostradas para poucos. As viagens que se acumulam na lembrança. Sempre penso em fazer diários de viagem, sempre desisto lá pela metade, quando o cansaço e a excitação superam a vontade de lembrar. Nomes, esquinas, estabelecimentos, pessoas, monumentos, artistas, estilos, épocas, tudo se mistura numa memória que é mais impressão do que detalhe.

A planilha de gastos. O cardápio da semana. O programa de exercícios. A organização das músicas nos ipods. A decoração da sala. O livro de receitas. Começados e esperando conclusão. Procrastinados sem dó.

Tudo incompleto, imperfeito. Irremediavelmente. Sou.

Sunday Blues

Sunday blues” é um nome bonito para um negócio feio: a combinação de preguiça e melancolia que atinge os proletários do mundo quando vai começando a musiquinha do Fantástico (ou do programa dominical noturno da Polônia ou do Zimbábue), porque pensamos que a segunda-feira é algo fundamentalmente diferente do fim de semana.

O fim de semana dá a impressão de que estamos saindo por alguns instantes do moedor de carne. No fim de semana, quase chegamos a acreditar que estamos livres, que somos donos do nosso tempo. Mas é uma mentira óbvia: o fim de semana existe apenas para que a nossa durabilidade como trabalhadores seja maior. Os fins de semana são o nosso óleo lubrificante. E entendam aí lubrificante como queiram.

Raul já sabia disso. E achava um saco o domingo no zoológico dando pipoca aos macacos. Mas nós alimentamos a ilusão de que algo nos diferencia fundamentalmente daqueles macacos. E que existem grades que nos separam de tudo o que não nos pertence, e nos delimitam: nós não somos aquilo que as grades contêm.

Sunday blues é o nome bonito para um sentimento angustiante: o intervalo entre o cair do pano e o acender das luzes, quando a ficção e a realidade por um instante se borram, e temos a esperança de que talvez não sejam atores, talvez a história de fato tenha acontecido, e a nossa existência precária se justifique, talvez haja um de verdade nisso tudo.

Mas as luzes se acendem na segunda-feira, e lembramos – como é que havíamos esquecido? – que as chaves enferrujadas da jaula estão em algum lugar por aí, e perdemos mais um domingo sem procurar.

Livre associação

Estruturar uma narrativa coerente. Encontrar o conflito, não fugir dele. Administrar desejos paradoxais. Aceitar que o desejo e sua negação convivem todo o tempo. Transgredir e desejar a punição. Sentir culpa. Sentir medo. Sentir solidão. Querer mudar e ter medo da mudança. Querer fazer, e procrastinar. A pitada insidiosa de caos no cotidiano. Ter saudade e ter preguiça. Amar e nem saber por onde começar a dizer. Dizer. Falar. Admitir que a fala é a falta. Faltar. Entender que a falta é o que move. Querer preencher o vazio, e querer o vazio. Saltar no vazio. Ter medo de cair. Querer o mar e o porto. Procurar uma música que descreva a angústia, um poema que descreva o amor, um livro que elabore. Não encontrar. Encontrar. Achar que encontrou.Querer viajar, ter medo de avião. Vontade de ter filhos. Medo de não conseguir. Amar profundamente. Ter medo de perder. Sonhar que perde. Sonhar e não entender.

Ser uma criatura do desejo e da morte.