Manifesto obsessivo

Não é bonito ser uma pessoa pesada (e não, isso não tem qualquer relação com massa corporal, e há por aí muita gente corpulenta que é leve, leve). Não é poético, não é atraente, não é romântico. Não está nas fantasias de ninguém. Não há pesados protagonizando filmes de Hollywood, a não ser em papéis cômicos. Woody Allen é um pesado. Jack Nicholson também.

Nós, os pesados, somos sempre alvo de chacota. Riem da preocupação excessiva, da possessividade, da ansiedade, do medo. Riem porque não sabemos viver a vida, não conseguimos relaxar. Na língua inglesa, somos apelidados de “anal retentive”, e dizem que é pela teoria freudiana das fases do desenvolvimento, mas na verdade é para fazer troça. Gente pesada sofre bullying pesadíssimo.

Sou dessas que chego num restaurante e me preocupo que haja cadeiras para todo o grupo. Dou uma festa, e espero que ninguém sobre sozinho no canto, sem companhia. Tenho horários e cumpro. Tenho obrigações e me desespero. Erro um caminho e entro em pânico. Fico irritada se as pessoas são grossas comigo, e me preocupo ao extremo em ser gentil. Sou uma pessoa chata, ligeiramente burocrática, um bocado cansativa. Não é simples conviver comigo e com a minha constante vigilância a todas as pequenas coisas.

Queria ser sílfide na vida. Solta, leve, flutuante. Queria ser assim, desprendida, dessas que pousam de leve e não pesam sobre as costas de ninguém. Queria ter riso frouxo, abraços enormes, e um jeito sincero de dizer “passa lá em casa” sabendo que ninguém vai passar em lugar nenhum. Queria saber me perder confiando que me achar é só uma questão de tempo – e que esse tempo não vai me fazer nenhuma grande falta na vida. Queria saber perder tempo, aliás. Jogar fora, e não lastimar. Queria saber jogar fora tudo. Todo o entulho.

Meu drama é que sou âncora, mas queria ser mar.

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A Estrada

Tem uns dias. Uns dias em que eu não queria nada disso. Não queria acordar de manhã feito um zumbi, praticar laboriosamente os gestos universais (salve, Drummond), sair de casa, entrar no metrô lotado, passar o crachá pontualmente na catraca e ficar aqui entorpecendo o cérebro com incríveis operações financeiras. Tem uns dias em que eu não queria essa baia, essa luz artificial, esse monitor de computador na minha frente, o telefone tocando, as conversas de banalidades unânimes. Não queria o café ralo, não queria o chefe chato. Não queria, não quero.

Nesses dias, quando tudo está mais difícil, só o que eu queria era a amplidão do deserto. O vento louco que atira pedras. Queria de volta a sensação de estar viva, indecentemente viva, umas partes de mim meio entorpecidas ainda doendo do súbito despertar. Queria o sol alucinado, os guanacos correndo. Lagos de água indescritivelmente azul. Queria sair de manhã sem saber o que vou ver até o fim do dia. Sem saber o que vou comer. Sem saber onde vou dormir. Queria de repente, numa esquina, uma casa de chá galesa. Um restaurante onírico com uma mesa impossivelmente repleta de delícias. Uma cabaña com vista pras montanhas nevadas. Uns pinguins atravessando na minha frente, uns golfinhos nadando do meu lado, um condor voando acima da minha cabeça. E a estrada. A estrada se estendendo, longa, infinita, cantando a impossível canção de sereia, chamando pra mais um pouco, mais longe, mais livre, mais além.

Sei que alguns sabem o que é isso. Sei que tem dias em que a estrada chama vocês, também. E tem dias em que dá vontade de chutar tudo e ir, só ir, até chegar. Porque esse torpor do trabalho e da rotina alienante leva pro desespero, e a estrada, não. A estrada é a esperança. Eu sei.